terça-feira, 22 de maio de 2018

Corte de Cabelo (Corte de Cabelo) 1995

Rita nunca tinha pensado muito em casar - uma rapariga com 19 anos tem a vida pela frente ainda para mais se é bonita, e tem uns cabelos negros, negros, e longos como a noite... E no entanto aqui está ela no Centro Comercial das Amoreiras, a pensar em Paulo, rodeada do brilho dos anúncios luminosos e dos reflexos das montras, a caminha em direcção ao cabeleireiro, onde as amigas, impacientes, a aguardam... Hoje é o dia do casamento da Rita. Todas querem ajudar. Nucha, a manicura trata-lhe das unhas, Lena, o cabelo, as colegas da perfumaria, uma maquilhagem fabulosa. Mas... e se o Paulo só gosta de mim pela minha beleza? As amigas desesperam. Mas Rita já decidiu. Pega numa revista e ordena à cabeleireira que lhe corte o cabelo, assim, como este... muito curto!
"Foi em meados dos anos 90 que Joaquim Sapinho trouxe uma lufada de ar fresco ao cinema português com "Corte de Cabelo". O filme deixava uma sensação de novidade, sentida pela crítica e pelo público. Foi também a estreia de Joaquim Sapinho nas lides cinematográficas, marcada por prémios internacionais como o da Crítica para a melhor actriz (Carla Bolito) do Festival de Genebra e a nomeação para o Leopardo de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Locarno de 1995. “Corte de Cabelo” trata do caos da vida urbana e da complexidade da vida a dois com um subtil sentido de humor." in Público

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sábado, 19 de maio de 2018

Ao Sul (Ao Sul) 1995

"Ao Sul" é a história de um homem (Henrique/Antonino Solmer) que regressa da Holanda a Portugal, depois de muitos anos de ausência, o coração dividido entre insatisfatórios amores abandonados, a vontade de retorno ao Alentejo natal como bálsamo para uma vida que percebemos ter sido gasta em coisas sem importância. Agarrar o tempo e a raiz - eis o seu projecto. A realidade que vem encontrar é-lhe, todavia, hostil. Em Lisboa, a memória de ocorrências na Guerra colonial reacende conflitos esquecidos; o Alentejo, incapaz de se reconverter a uma agricultura concorrencial, recebendo-o como um traidor que vem trabalhar para uma grande empresa holandesa. Um sopro de desespero atravessa "Ao Sul" como uma adaga suspensa sobre o pescoço de todos nós. Em Portugal abafa-se.
Fernando Matos Silva filma esta respiração sufocante, fazendo-se cruzar no filme uma miríade de personagens. Primeira constatação: a maior parte dessas personagens existe, quer dizer, tem, mesmo se a sua passagem é curta, densidade humana, peso, justificação dramática. Mérito, já agora, também dos actores. Não falo de Antonino Solmer, que desde já tem aqui o melhor desempenho da sua carreira cinematográfica,  mas dos outros, dos que pouco espaço e pouco tempo têm para nos convencer, como José Manuel Mendes, Luísa Cruz, Miguel Guilherme ou Manuel Cavaco: brevíssimas interpretações, perfeito entendimento. E se também há personagens frágeis (caso do avô louco, interpretado por Canto e Castro, ou de Liberato/João Cabral), isso se deverá mais a problemas do argumento que a inabilidade dos intérpretes. É que Fernando Matos Silva (que teve Maria Isabel Barreno como co-argumentista) não resistiu à tentação dos símbolos, a uma sobrecarga de elementos que desviassem a leitira do filme para lugares mais vastos, introduzindo, aqui e ali, desequilíbrios incomodativos, porque tornando óbvio o que melhor seria ir perdurando subterraneamente. Aliás, "Ao Sul" teria ganho muito com algum incremento de contenção.
Estamos em presença de um filme que gere precariamente os equilíbrios. Constatação que não deve iludir-nos o essencial. A força de uma narrativa que trás dentro de si uma convicção e uma força humana que nenhuns desequilíbrios anulam. A dor no rosto de Luísa Cruz, a luz do espaço alentejano, o homem que corre a medir o espaço de uma casa, seu novo território, uma cena de amor físico que cheira à mais funda solidão, são coisas destas que nos fazem guardar um filme e saber o que quer dizer pensar cinema. Coisas que estão em "Ao Sul", feito por um cineasta que sabe o que fala.
Texto no Expresso de 2-9-1995

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sexta-feira, 18 de maio de 2018

Três Palmeiras (Três Palmeiras) 1994

Lisboa, num dia de Inverno de 1994, entre as seis e as catorze horas. Uma mulher de quarenta anos desespera ("ter a idade que tenho e não saber nada de ter filhos") nas últimas oito horas que precedem o nascimento do seu primeiro filho. Entre risos e lágrimas, o seu companheiro, um homem muito mais novo do que ela, inventa-lhe histórias que coincidem com as horas que passam e lhe aliviam a dor. Trágicas, cómicas, caóticas e alucinadas.  No preciso momento em que, ao princípio da tarde, o cadáver de um dos personagens é retirado do rio, um recém-nascido solta os primeiros e emocionantes berros da vida. De manhã, Lisboa é assim.
"Um freixe de histórias entrecruzadas num filme que faz manhã em Lisboa. A cerzidura é precária, mas não o material de base onde onde se entrevê um sem número de hipóteses para outros tantos filmes, possíveis de construir isoladamente, com outro tempo, outra respiração. Filmes em géneros diversos, do melodrama ao musical, da história de amor ao registo fantástico, expostos como numa montra de charcutaria. E tal como aí, uma a uma, é provável que as "delicatessen" fossem de aprovar. Em conjunto é quase certo que os sabores se anulem e que haja indigestão em perspectiva". Jorge Leitão Ramos.

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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Zéfiro (Zéfiro) 1993

Zéfiro é um filme sobre Lisboa, a última das cidades mediterrâneas, condenada ao Atlântico pelo estuário vastíssimo que a separa "da outra banda". A princípio, o trajecto escolhido parece ser o dos cacilheiros, os "ferry-boats" que ligam a margem Norte à Margem Sul do Tejo, na realidade, quando chega à margem sul, o filme muda inesperadamente de registo e, enquanto nos fala dos povos que sucederam ou coexistiram no Sul profundo de Portugal, cruza a planície do Alentejo, e desde do outro lado até ao mar, onde pára finalmente, a contragosto, como se quisesse continuar até ao Mediterrâneo. Depois volta desencantado para cima, e é já de noite quando atravessa o rio de novo.
Zéfiro é uma crónica histórica de Lisboa face ao Sul, onde a um discurso quase de carácter didáctico-informativo se sobrepõem fiapos de ficção, como se o espaço visitado segregasse, ele mesmo, uma vontade de imaginar, como se as planuras, os castelos ou as vielas tivessem lá dentro ficções.Um marinheiro pode, por isso, ser acometido de uma vontade de dança no convés de um cacilheiro, um misterioso cavaleiro árabe pode atravessar os campos do Alentejo, como uma visão, um homem pode esfaquear uma mulher nas sombras vizinhas a S. Vicente de Fora e fugir desabaladamente. E sobre tudo pode pairar a sombra errante de Corto Maltese. É quase um principio poético que enforma a construção de Zéfiro, de José Álvaro Morais, cineasta de pouquíssimos filmes, perguntamo-nos todos porquê, mas que sempre inventa, procura, joga, cria.
* Texto de Jorge Leitão Ramos.

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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Encontros Imperfeitos (Encontros Imperfeitos) 1993

Mário esteve envolvido num atentado em África. Todos pensam que foi um acidente, mas Mário sabe que não foi. Escondido agora no Alentejo, sabe que, mais cedo ou mais tarde, "eles" o vão encontrar e, no entanto, não quer fugir não quer fugir com uma nova identidade enquanto não descobrir a sua paixão, Alice. Mas, "eles" encontram-no, mas Mário consegue escapar com a ajuda de Matilde, uma mulher fascinante que lhe dá abrigo...
Primeira, e única, longa metragem de ficção de Jorge Marecos Duarte, um realizador da geração da Escola Superior de Cinema de 1980/81, que tinha já um passado interessante na área, tendo trabalhado como assistente de realização de Fonseca e Costa e Fernando Lopes, além de ter produzido "Sem Sombra de Pecado". Para a sua primeira longa de ficção Jorge Marecos Duarte tentou construir um "thriller" inteligente combinando acção e muitas reviravoltas psicológicas, e de certa forma até conseguiu. Era a primeira vez desde "O Lugar do Morto" que o cinema português lançava um filme tão declaradamente comercial, mas os resultados ficaram muito aquém do anterior, tendo "Encontros Imperfeitos" saído de circulação por muito tempo.
Vale também pela recordação do excelente elenco: Diogo Infante (uma quase estreia, era apenas o seu terceiro filme), Fátima Belo, Paula Guedes, Nicolau Breyner, João Grosso, João Perry, Maria João Luis, Curado Ribeiro, e o omnipresente Canto e Castro.

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domingo, 13 de maio de 2018

O Fim do Mundo (O Fim do Mundo) 1993

Foi por coisa pouca. Mas o certo é que Augusto Henriques (Henrique Viana) matou Conceição das Neves (Adelaide João). Tudo por causa da água de um riacho. Agora, aos 65 anos de idade, Augusto vai enfrentar, pela primeira vez na sua vida, a prisão, um julgamento, polícias e tribunais. E ainda por cima ele até nem se acha culpado. Afinal de contas foi a mulher que se baixou porque ele tinha feito pontaria ao ombro.
Mais um episódio da série da RTP "Os Quatro Elementos", representando a Terra, é, ao mesmo tempo, o melhor episódio desta pequena série, e um dos melhores filmes de João Mário Grilo. Grilo já tinha filmado a história do passado em "O Processo do Rei", e desta vez fala sobre a história contemporânea, abordando temas como o despovoamento do interior e a emigração. É um filme de poucas falas, onde se fala praticamente o essencial, e cada palavra tem o seu peso na caracterização de cada personagem, mas mesmo assim vale pela excelente prestação dos actores. Carlos Daniel tem a sua melhor prestação em cinema, e José Viana e Alexandre Lencastre também brilham a grande altura.
Sendo ele um telefilme feito para a RTP, "O Fim do Mundo" andou "perdido" durante muito tempo, nunca tendo lançamento comercial em DVD ou VHS, mas merece ser visto como um filme por inteiro. Foi também exibido no Festival de Cannes em 1993.

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sábado, 12 de maio de 2018

Das Tripas Coração (Das Tripas Coração) 1992

Dois gémeos ruivos de vinte anos, Beatriz e Armando realizam o seu sonho tornando-se bombeiros. No exercício dessa função Armando acode a uma linda vizinha em apuros. Entre eles nasce uma calma amizade, mas que se transforma nas conversas com a irmã, numa paixão escaldante. Beatriz começa então a sentir estranhos sintomas: ouve fogos! Para se proteger do ruído destas imaginárias fogueiras ela compra um walkman, coisa que contribui para a isolar dos outros e sobretudo do irmão. Até que, por acaso, descobre a cura: beijos. É simples: basta que alguém a beije para que o silêncio volte à sua cabeça. Passa então de homem em homem, escolhendo de preferência turistas, que ela não verá nunca mais....
Alguns dos filmes portugueses mais interessantes dos anos noventa eram sobre a adolescência, e a forma como tentavam construir a sua subjectividade. Joaquim Pinto constrói uma bela, tocante e intensa história em torno de dois irmãos gémeos, um rapaz e uma rapariga, ambos bombeiros que se deixam perturbar muito mais pelo fogo interior das suas paixões, desejos e receios, que pelo fogo real que combatem no quotidiano. Pinto mais uma vez traça o retrato de jovens almas em conflito num filme sensível e amargo que conta com a participação de Leonor Silveira, Armando Cortez e Márcia Breia no elenco.
Contribuição de Joaquim Pinto para a série “Os Quatro Elementos” (co-produção Madragoa, RTP, La Sept) em que lhe coube filmar o Fogo, ao lado de João César Monteiro (a Água: "O Último Mergulho"), João Mário Grilo (a Terra: "O Fim do Mundo") e João Botelho (o Ar: "No Dia dos Meus Anos").

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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Rosa Negra (Rosa Negra) 1992

Rosa Negra. Uma cidade que se encaixa na serra. Um comboio atravessa os campos. Uma mulher, Fernanda, regressa nele, profundamente ferida, após uma conjugalidade interrompida. Um homem, António, regressa no mesmo comboio. Foi, em tempos, forçado a partir. Será agora julgado por um crime que não cometeu. Na estação, António encontra Mariana que ele não vê desde miúda. Rosa Negra fica entre a serra e a cidade. Ali se encontram António e Mariana. Ali começa tudo. A vida.
"Com uma intensa carreira ligada à realização e produção televisivas, bem como à passagem pela Universidade Nova de Lisboa enquanto docente, Margarida Gil é provavelmente a mais canónica das cineastas referidas nesta breve listagem. Tendo sido casada com João César Monteiro, identifica-se com uma geração de realizadores da qual fazem parte Alberto Seixas Santos, Fernando Lopes, Paulo Rocha ou Rita Azevedo Gomes, entre outros, que buscaram incessantemente uma ligação entre o cinema nacional e o cinema de autor. A actual presidente da Associação Portuguesa de Realizadores nasceu na Covilhã, em 1950. Quatro décadas mais tarde, regressou às origens para filmar uma história de memórias e desencontros, dando a conhecer uma Serra da Estrela permanentemente fustigada por incêndios. Os diálogos, escritos com a colaboração de Maria Teresa Horta, oferecem o mimetismo de uma cidade fechada, com a qual a cineasta parece ter contas a ajustar. “Adeus, terra adormecida, adeus, que me vou embora”, canta Teresa Salgueiro, na composição propositada de João Gil. Pela narrativa perpassa a partilha de experiências da condição feminina, sintetizada na fala de uma personagem: “Eu… antes de mim, a minha mãe, filha de outra mulher.” Gerações que transmitem a melancolia, a falta de suporte, a vontade de algo que parece sempre mais difícil de atingir em virtude de uma condição. Como o comboio que vem de Lisboa e que, percorrendo paisagens idílicas, tarda tanto em chegar. Seriam também estas as últimas interpretações de Mário Viegas e de Zita Duarte." do site Pála de Walsh.

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quinta-feira, 10 de maio de 2018

Um Passo, Outro Passo e Depois... (Um Passo, Outro Passo e Depois... ) 1991

Início da carreira de Manuel Mozos, Um Passo, Outro Passo e Depois… tornou-se uma obra praticamente invisível. Porque, depois da perda dos materiais originais, só pode ser visto numa versão transcrita para vídeo, com péssima imagem (sem definição, cheia de “flou”, com as cores alteradas e deterioradas) e som em não muito melhor estado, que não é Um Passo, Outro Passo e Depois…. Apenas, infelizmente, a sua ruína.
 E que podemos adivinhar a partir deste pequeno destroço sobrevivente? Em primeiro lugar, uma gritante contiguidade entre Um Passo… e o Xavier que pouco depois começaria a ser rodado. É verdade que alguns actores (Pedro Hestnes, Sandra Faleiro, Cristina Carvalhal) passaram de um filme para o outro, e que esse pormenor influencia a sensação de proximidade. Mas esse pormenor é apenas isso, um pormenor. Porque o tipo de personagens é bastante semelhante: jovens mais ou menos perdidos em paisagens semi-urbanas, ou na fronteira entre o urbano e o rural (a julgar pelo genérico final, o filme foi rodado na zona de Oeiras e Paço de Arcos). Os lugares são também bastante semelhantes: escolas, cafés, cenários duma espécie de “urbanismo incompleto” (ver a sequência nocturna, nas obras). O modo narrativo, mesmo que aqui se aposte numa linearidade que não seria a de Xavier, contém já alguns sinais do que Mozos depois desenvolveria com outro fôlego e outra amplitude: repare-se nas elipses, nos saltos espaciais e temporais, nos espaços em branco que ficam por preencher nas relações entre as personagens, espaços esses que o decorrer do filme se encarrega de esclarecer (ou não). 
 A que podíamos acrescentar a profunda melancolia que percorre todo o filme – e de que o “confronto” entre o grupo de jovens e o velho contínuo Nogueira (Canto e Castro) é simultaneamente um veículo e o ponto de chegada. Nogueira – grande interpretação de Canto e Castro – é uma personagem fascinante, no seu mutismo solitário, na sua marginalidade auto-imposta (“a minha vida está muito bem assim”, diz a certa altura). Mas também é tudo menos uma personagem “transparente”, e há uma relação de poder (o magro poder que lhe confere o estatuto de contínuo) muito interessante e muito equívoca entre ele e o bando dos miúdos: a noite da perda das chaves, passada entre o orgulho e a humilhação, confere à personagem uma complexidade fascinante, uma espécie de brilho “opaco” que a vai tornando cada vez mais perturbante.
Texto de Luis Miguel Oliveira

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terça-feira, 8 de maio de 2018

O Processo do Rei (O Processo do Rei) 1990

Portugal oferecia nesse tempo um estranho espectáculo à Europa. D. Afonso, filho do feliz D. João de Bragança, reinava, era louco e imbecil. A mulher, filha do Duque de Nemours, prima de Luís XIV, ousou conceber o projecto de destronar o marido. A estupidez do rei justificou a audácia da rainha. Apesar de ser senhor de uma força muito além do normal, de ter dormido durante muito tempo com a mulher, foi por ela acusado de impotência, e tendo Marie Françoise adquirido no reino, pela habilidade, o que Afonso tinha perdido pelo furor, fê-lo aprisionar (Novembro 1667) e depressa obteve de Roma uma bula que lhe confirmou a virgindade e lhe abençoou o casamento com o cunhado, Pedro.
Terceira obra de João Mário Grilo, oito anos depois de "A Estrangeira", um filme que foi selecionado para Veneza. Desde os anos oitenta que é um dos realizadores mais certeiros, filmando quase sempre com algum tempo de intervalo, e quase sempre certeiramente. "O Processo do Rei" era sobre um tema que ele viria a debruçar-se novamente em "Os Olhos da Ásia", a ficção história onde o cinema encontra umas verdades na dobras do tempo, de outras formas de quotidiano. Nestes dois filmes há um forte sentido de tragédia, como se o mundo contivesse, em si, a capacidade de ser feliz.
Vamos estar de olho neste realizador durante este ciclo, e podem esperar dele mais quatro filmes. 

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segunda-feira, 7 de maio de 2018

A Mulher do Próximo (A Mulher do Próximo) 1988

O mundo pacato da família Castro Silva é repentinamente abalado pela notícia do falecimento do pai, Mário, na companhia da sua jovem amante, Terry, num brutal acidente de viação. Quando a viúva e a filha, Cristina e Isabel, se deslocam à casa mortuária para identificarem o cadáver, descobrem que o pai da rapariga vitimada é António, outrora amigo de Mário e grande amor de Cristina...
"Expondo-se, em auto-ironia, no altar de um utilitarismo social que se espera também ele cumpra, este filme, esta comédia mordaz, faz ponte e ruptura com a obra anterior de Fonseca e Costa. Ponte, pela permanência da burguesia desocupada como protagonista do seu cinema, ruptura pelo abandono de referências directamente politico-ideológicas. História muito bem arquitectada, com um elenco saboroso (dando oportunidade ao primeiro grande papel no cinema de Carmen Dolores e  um come back por cima de Virgílio Teixeira, e a actriz brasileira Fernanda Torres na composição de mais um retrato de mulher a juntar à galeria de Fonseca e Costa - ao lado de Maria Cabral em "O Recado", Victoria Abril em "Sem Sombra de Pecado, ou de Assumpta Serna em "Balada da Praia dos Cães", "A Mulher do Próximo" constituiu um sucesso de público, confirmando o realizador na linha da frente das preferências dos espectadores portugueses." JLR

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domingo, 6 de maio de 2018

Matar Saudades (Matar Saudades) 1988

O filme passa-se numa aldeia de Trás-os-Montes e tem como protagonista um homem que, depois de ter emigrado para França, regressa à sua aldeia onde tudo parece ter mudado. Abel (Rogério Samora) resolve regressar depois de ter recebido uma carta do irmão a informá-lo que algo se passa com Teresa (Teresa Madruga), a noiva que deixou em Portugal. Enquanto a aldeia se prepara para a representação do "Acto da Paixão", em que Teresa participa, Abel prepara-se para a vingança. 
Fernando Lopes, a partir de um excelente argumento, assinado por ele próprio de parceria com Carlos Saboga e António Pedro Vasconcelos, realizou em 1988, "Matar Saudades", uma terrível e tocante história de paixão e morte numa esquecida aldeia de Trás os Montes. "Matar Saudades", onde se refletem alguns dos temas mais caros ao cinema de Lopes, como a nostalgia do passado e as dificuldades de adaptação à inevitabilidade transformadora do presente, é, na verdade, um belo, agreste e amargo filme, que conta com um grande elenco onde se destacam os nomes de Rogério Samora, Teresa Madruga e Eunice Muñoz.

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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Flores Amargas (Flores Amargas) 1988

Um dia de festa na comunidade timorense encalhada no Vale do Jamor. Um guerrilheiro que veio de Timor e a sua história. Um olhar sobre um povo abandonado.
Em Maio de 1989, pouco depois de "Flores Amargas" ter sido estreado na RTP, a sua realizadora, Margarida Gil, dava uma entrevista ao Diário de Lisboa. E, à pergunta "quais foram as reações ao filme?", respondia: "Permitiram-me perceber que o desleixo em Portugal é ainda maior do que eu pensava. Ainda supus que o filme levasse as pessoas a falarem de Timor, mas nem isso". Todos estes anos volvidos, como que por ironia, não é Flores Amargas que faz falar de Timor, mas o facto de o futuro de Timor ser o que sabemos que torna mais aguda a consideração que o filme merece.
Originalmente pensado com um dos episódios da colecção "Fados" - e como tal mostrado em 1989 - Flores Amargas é uma ficção de cariz paradocumental. Filmada junto dos refugiados timorenses atirados pela descolonização para o Vale do Jamor, tornando-os como actores de uma trama-pretexto, o essencial do filme está ao nível do testemunho e talvez mereça mais respeito como gesto ético e solidário que como obra estética. É a descoberta dos rostos, dos olhares, da perplexidade das coisas a sobrepor-se a uma hipótese de ficção tecida com fios tão frágeis que, verdadeiramente, não chega a existir. 
Anote-se que foi para aqui que João Gil compôs o tema musical dedicado a Timor que, depois, teve a função de se tornar um quase-hino.
Texto de Jorge Leitão Ramos

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quinta-feira, 3 de maio de 2018

O Nosso Futebol (O Nosso Futebol) 1985

"Portugal : cem anos de futebol e de história. Joga-se, desde o princípio, um insuspeitável jogo feito de inúmeros jogos parcelares num permanente confronto de opositores que se sucedem povoando sempre os mesmos dois meios-campos : Portugal. Que história é essa que se conta? Que aguerridos jogos, afinal, se vê jogar?
O nosso futebol : futebol da nossa história. Desde 1888. Os aristocratas dos primórdios contra os inglêses, o Ultimato, o «jogo do coice», a insolente desforra do «Grupo do Destino», o regicídio de 1910, o Lisboa-Madrid, o futebol da república, confrontos na União, o Carcavelinhos, a plebe em acção, a Grande Guerra, vencedores e vencidos, o quadro eléctrico, as multidões. A crise, os golos de Salazar, milhões de adeptos, o Estádio Nacional, heróis lendários, os Cinco Violinos, a vitória contra os ingleses, Fátima, Futebol e Fado. A televisão. Anos sessenta : o apogeu e o Totobola. O Benfica-Barcelona, a Taça das Taças, a Minicopa, Eusébio, os negros das colónias no estádio, avindos irmãos, o quebrar da onda, o 25 de Abril, verdes e encarnados, o transe. Novas vitórias de velhos clubes. E hoje, que vontades, que futuro para as incalculáveis lutas?
A história do futebol em Portugal, desde os finais do século XIX até meados dos anos 80 do século XX, num documentário muito particular de Ricardo Costa que estabelece paralelos entre a História do país e a história do futebol, entre os jogos que fizeram história e os Jogos da História. Por um lado, evoca a progressão do futebol, dos clubes, dos jogadores e das associações desportivas. Por outro, reflecte sobre a trajectória do país, do Ultimato ao 25 de Abril. Há quase vinte anos, este filme sobre as subtilezas e as coincidências, históricas e desportivas, que ligavam o futebol à política, foi encarada com muitas reservas e perplexidade. Hoje, já ninguém pensa o mesmo.
A narrativa é conduzida por António Vitorino d´Almeida, que também é o autor da música."

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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Pelos Pergaminhos do Cinema Português

O Cinema Português nunca teve um caminho fácil, desde os tempos mais primórdios até à actualidade. Nunca houve muito dinheiro para fazer filmes, e infelizmente também nunca houve muito público para os ver, porque não é respeitado pela grande maioria da nossa população, embora seja muito reconhecido fora de portas.
Ao longo dos quase dez anos dos Thousand Movies (One e Two) o cinema português sempre um cantinho muito especial. Foram partilhados mais de 300 filmes portugueses, e vários foram lançados aqui pela primeira vez na internet, não por serem novinhos e acabadinhos de saír, mas porque eram documentos de visão obrigatória, não só para a nossa população mas também para o mundo inteiro..
No ciclo que hoje começa, e que se prolongará até ao final do mês (com 25 filmes), iremos visitar uma época fulcral nesta filmografia: a que vai desde meados dos anos 80, até ao início do século 21. Foi uma época bastante criativa, em que o cinema português andou claramente aos solavancos. Muitos filmes estreavam, e pouco depois desapareciam do mapa, como se tivessem deixado de existir.
Estes 25 filmes, foram escolhidos livremente, e incluem algumas dessas raridades que desapareceram da circulação pelas mais variadas razões. Alguns deles, pelo menos quatro, até poderão ser revistos pela primeira vez neste ciclo.
Até amanhã, e bons filmes.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Penn & Teller Get Killed (Penn & Teller Get Killed) 1989

O duo Penn e Teller interpreta-se a si próprio nesta comédia de humor negro, um relato satírico do que o público imaginaria que ambos fazem nas suas vidas quotidianas. Boa parte do argumento envolve Penn e Teller a fazer brincadeiras um com o outro, e ainda com a namorada de Penn, Carlotta (interpretada por Caitlin Clarke). A piada final, como implica o título do filme, tem sérias consequências para os três.
Derradeira obra de Arthur Penn para o cinema, porque depois deste filme continuou a fazer trabalhos para a televisão, não muito revelantes. Este Penn do título não é Arthur Penn, mas sim o comediante Penn Jillette, que com Teller faz uma dupla de comediantes que esteve muito em voga nos anos oitenta e noventa.
Depois de uma carreira tão rica em cinema, foi uma triste forma de terminar a carreira, para Arthur Penn. E assim também termina este ciclo, que espero que tenha sido do vosso agrado.
O filme não tem legendas.

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Noite Gótica (Dead of Winter) 1987

Katie McGovern (Mary Steenburgen) é uma actriz desempregada que vive com o marido e o irmão. Vai a uma audiência que encontra num jornal, e é seleccionada para filmar um pequeno vídeo que será enviado ao director para aprovação. O senhor Murray (Roddy McDowell) é o homem quem assegura a audição, e leva Katie para uma mansão isolada onde irão gravar o video. Mas as coisas não correm bem e Katie apercebe-se que foi feita prisioneira...
Lançado discretamente nos cinemas em 1987, para pouco depois passar para a televisão por cabo paga, "Dead of Winter" continua como um filme de género incompreendido, não é um thriller de suspense, ou uma entrada no terror gótico, mas sim um shocker ao estilo de Grand Guignol, que começa com um gancho inocente.
O argumento de Marc Shmuger e Mark Malone (uma adaptação não creditada de um livro de Anthony Gilbert chamado "The Woman in Red" e que tinha sido anteriormente filmado num filme chamado "My Name is Julia"), tem alguns buracos, mas o realizador Arthur Penn consegue contornar essas questões com um elenco forte e convincente, principalmente Steenburgen, que era uma actriz de topo na altura.

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quinta-feira, 26 de abril de 2018

O Alvo (Target) 1985


Um "thriller" familiar, onde o centro da acção é a família de Duke (Gene Hackman), ex-agente da CIA, "reformado" da organização, que se vê repentinamente envolvido na memória da Guerra-Fria depois de lhe raptarem a mulher.O filho de Duke é Chris Lloyd (Matt Dillon), e os dois não se dão nada bem, mas para conseguirem recuperar a senhora Lloyd vão ter que se transformar em homens de acção e trabalhar em equipa. 

Realizado no auge do subgénero da intriga internacional, é um filme que além da intriga em sim, também se debruça sobre a relação entre um pai e um filho. Nunca deixa de surpreender esta primeira fase da carreira de Matt Dillon, muito diferente da fase posterior. Como jovem actor, ele fazia sempre papéis ingénuos e idealistas, e passou a fazer o oposto em quase tudo, desde então.
O trabalho de Arthur Penn na década de oitenta, também é muito diferente da sua fase anterior, e aqui ele trabalha mais no campo do cinema de género, do que outra coisa. O resultado foi algo de desolador, e não viria a mudar muito daqui para a frente. 
Mesmo assim, recomenda-se a quem gosta desta vaga de "thrillers" politicos dos anos oitenta.

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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Quatro Amigos (Four Friends) 1981

"Four Friends" foi filmado já na fase final da carreira de Arthur Penn, e contava com argumento de Steve Tesich (vencedor de um Óscar por "Breaking Away"), e é um estranho e adorável pequeno filme, que apareceu e desapareceu em 1981. Recebido com sucesso entre a critica, mas puro veneno para as bilheteiras, com a narrativa a desenrolar-se em plena década de sessenta, e fala-nos sobre a amizade de três rapazes e uma rapariga. A sociedade muda à sua volta, eles crescem e separam-se uns dos outros, mas os amigos e a vida da cidade natal sempre chama de volta, resultando em alguns momentos através do turbulento clima social da década.
Apesar do filme ter alguns momentos estranhos, vale pelas interpretações dos quatro jovens actores, com destaque para o protagonista, Craig Wasson, que três anos depois veriamos como protagonista de "Body Double", de Brian de Palma. Infelizmente mais ninguém desta jovem geração de actores foi muito longe. 
Talvez o problema principal do filme seja de tentar desesperadamente explicar os anos sessenta como um tempo de revolta, protestos da guerra, revolução sexual, uso das drogas, o que faz com que o foco principal de seguir os quatro amigos perca um pouco de força, mas ainda assim é uma pequena joia, de um grande realizador, a ser descoberta.

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terça-feira, 24 de abril de 2018

Duelo no Missouri (The Missouri Breaks) 1976

Tom Logan é um ladrão de cavalos. O rancheiro David Braxton tem cavalos, e uma filha, que valem a pena roubar. Mas Braxton acabou de contratar Lee Clayton. um infame "regulador" que chega para caçar os ladrões de cavalos. Um de cada vez...
"The Missouri Breaks" não é um western usual. Na verdade, não é nada usual. As palavras mais usadas pela altura da sua estreia eram "bizarro" e estranho, e confundiu bastante as audiências tendo em conta que era um filme interpretado por Marlon Brando e Jack Nicholson. Mas hoje em dia, esta mistura peculiar de clichés do western, humor negro, romance e drama de vingança, contribuem para um entretimento interessante.
A história era antiga, sobre dois inimigos naturais, rancheiros e foras da lei, mas o escritor e argumentista Thomas McGuane dá-lhe uma inesperada reviravolta. Fazendo equipa com ele estavam os actores Marlon Brando e Jack Nicholson, no auge da sua fama, um realizador, Arthur Penn, que era um autor e ao mesmo tempo, entertainer. Para não falar do fantástico elenco de secundários: Randy Quaid, Kathleen Lloyd, Frederic Forrest, Harry Dean Stanton, entre outros. Apesar de McGuane ser mais conhecido pelos seus casamentos, já tinha escrito algumas obras interessantes sobre a exploração do machismo, como "Rancho Deluxe" e "Ninety-Two in the Shade". McGuane tinha escrito este argumento para ser um projecto seu, com ele próprio a realizar o filme, com Warren Oates e Harry Dean Stanton como protagonistas. Quando o produtor Elliott Kastner se envolveu no projecto, teve a ideia de convidar Brando e Nicholson para protagonistas (vizinhos na vida real, mas nunca tinham trabalhado juntos). Os dois acabaram por concordar, indo a realização parar às mãos de Arthur Penn, um realizador que ambos respeitavam.
Enquanto que a maioria dos críticos tenham sido particularmente indelicados com o filme quando estreou, Tom Milne foi dos poucos que admirou. Considerou-o um dos grandes westerns dos anos setenta.

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